28/12/2019
Memoriando
Não há chegada do Ano Novo que não me lembre dele. Era filho de Marcela, moradora da Rua da Batatinha. Um único “viado” assumido da cidade, de uma gentileza a toda prova, mas cheio de trejeitos, aqueles trejeitos universais dos homossexuais. Essa era uma palavra que não existia no vocabulário “macho” de Alagoa Nova. Sim, porque indefinidamente as línguas afiadas chamavam de “mariquinha”, bigodete”, “cai-do-banco”, “fresco”... Mas ele passava impassível pelas ruas da pequena cidade e ia lavar pratos nas casas dos que podiam pagar uma diária. Era exímio “limpador” da sujeira dos mais grãfinados.
Nos carnavais, lembro-me, aparecia pobremente vestido aguçando a farra da molecada. Eu era um desses moleques que achavam que aquela performance era sensacional: atrás de casa, onde hoje passa uma avenida (Joaquim José do Vale), lá estava ele: uma vestido feminino em trapos, uma “arriata” fazendo a cintura, um pano qualquer na cabe, tina no rosto e nas pernas, o batom vermelho sangue, e um cipó nas mãos. Era o cipó, a nossa alegria. Porque ele fazia que ia nos pegar nas pernas, os braços levantavam voo e o cipó verde nunca nos pegava depois de seus “ais, uis, uiuius...
Passado o carnaval ele passava silente. Se dávamos um oi, ele respondia silenciosamente. Jamais nos fez qualquer proposta indecente, jamais chamou alguém “a terreiro”.
-- Quando vai se fantasiar de novo - ´perguntei-lhe uma vez, na minha alegria de oito anos de idade.
- Agora só no Natal, meu filho. Vou aparecer assim.... de mamãe noela...
E eu ria, achava mesmo engraçado. Não passava disso.
E veio o Natal. E ele apareceu de vermelho, com um s**o de estopa inflado. Havia apenas papel ali dentro, disse sorrindo. Mas foi o papai Noel mais divertido, oriundo da Batatinha e que vinha alegrar os fundos de nossa casa, ali juntinho à casa de taipa de Maria Gato.
Um dia, chegando as vésperas do Ano Novo, da passagem de ano, como chamávamos, um elemento que tinham um comércio de cal, ali, bem ao lado do prédio dos Correios, chamou os amigos e resolveu “brincar”. Quando ele, esse personagem que ainda não nomeei passou, o agarraram. Enfiaram sua cara na cal – eu vi tudo – e afundavam, afundavam... Eu quis chorar. E quando levantaram sua cabeça, seu rosto estava vermelho, começando a inchar, e ele chorava. E inchou, mesmo. Ainda lembro de seus soluços e dos escárnios de seus agressores.
Por quê?
Por nada.
Depois daquele episódio, que justiça alguma se deu conta, ele partiu. Para sempre.
Quando via Marcela, perguntava por ele. Ela gesticulava com a mão e guardava silêncio. Nunca mais soube de seu destino. Deve ter morrido anônimo, como muitos que conheci, não g**s, em minha vida de militante nos tempos da ditadura.
Naquele ano, quando estávamos na missa da passagem do ano, pensei nele. E na minha meninice de oito anos de idade, rezei. Rezei para que Bozó tivesse um bom destino.
Sim, seu apelido era Bozó. Seu nome verdadeiro, jamais soube. Texto de Luiz avelino, ALagoa novence que reside em São Paulo, tirado do Facebook.