17/04/2024
Por Camila Zoschke Freire
Escolhi o livro “Ioga” de Emmanuel Carrère para ser a minha leitura de férias. Inadvertidamente, desconsiderei que o inconsciente não tira férias. Cruzei com alguns comentários de psicanalistas nas redes sobre o livro mas decidi não ler, geralmente não o faço antes de minha própria leitura. Desta feita, iniciei o livro sem ter ideia do que encontraria.
Eis que me percebi, logo de início, profundamente afetada pela leitura. Encontrei uma escrita pulsante, viva, aos moldes de um testemunho. O autor fala daquilo que o arrebata, do traço identificatório que recolhe daqueles que ama ou que perde, da vaidade, da insistência, da sua loucura, de uma vida em curso. Essas características que destaco sugerem a possibilidade de uma leitura clínica.
E aí começam as minhas perguntas: o que diferencia o caso clínico da literatura? Teria Freud sido afetado pelo texto de Jensen, “Gradiva”, assim como me percebo arrebatada pelo de Carrère a ponto de, por conta dele, desejar produzir outro texto? Como é possível que as palavras de um outro afetem o leitor em seu corpo? Afinal, durante sua leitura eu produzi sonhos – algo se produziu em mim – rabisquei o texto, me emocionei e senti medo.
O livro é designado como autoficção cuja definição, dada por Michel Laub, caracteriza uma escrita que se encontra no limiar da biografia e da invenção. Essa ideia desperta outra série de perguntas: há algo num auto que não inclua o caráter ficcional? O que é isso que alguns autores sabem de nós, que chama o nosso insabido? O que, de um texto, me escreve?
Luciana Salum ressalta que há textos que despertam o traço do leitor e o fazem autor na medida em que tem como efeito produzir no primeiro o desejo de escrever outro texto. O que me faz pensar que um livro só termina quando encontra esse leitor que assim, finaliza o (seu) texto – a carta que encontra o destinatário. Com Barthes, Salum recorda que se trata de textos que contém a presença do autor, sua coisa, algo que está associado ao corpo de quem escreve.
(segue nos comentários)