15/02/2022
SABIA QUEM FOI O ARQUITETO QUE PROJETOU OS LOTES DO PRENDA?
A Unidade de Vizinhança do bairro Prenda (1963 – 1965) é uma obra reveladora das influências diretas de Le Corbusier a três escalas diferentes: do urbanismo, do bloco de habitação coletiva Fernão Simões de Carvalho realiza com a colaboração de Luiz Taquelim da Cruz o plano de pormenor para a Unidade de Vizinhança n.º1, elaborado entre 1963 e 1965. Organizado de acordo com sistema das "7V" (Sistema de hierarquização de tráfego proposto por Le Corbusier e desenvolvido por Maxwell Fry e Jane Drew para Chandigarh, denominado “Les Sept Vois de Circulation” ou 7V) proposto por Le Corbusier, conjuga os ensinamentos de Robert Auzelle na definição de diferentes tipologias destinadas a diferentes grupos sociais e étnicos.
Esta Unidade de Vizinhança implanta-se numa área de aproximadamente 30 hectares sendo constituída por 22 edifícios residenciais. A integração de vários grupos sociais é possibilitada através da definição de diferentes categorias de edifícios de habitação bem como alguns equipamentos, designadamente cinema e centros comerciais. Esta Unidade é composta por uma rua comercial tortuosa, onde os automóveis circulam lentamente (V4) e por outra via também sinuosa de acesso às habitações (V5). Entre estas duas vias estavam previstos grande parte dos equipamentos que nunca foram construídos. Os impasses (V6) são projetados para acesso à habitação unifamiliar e para a habitação em banda, existindo pequenas praças.
Os blocos de apartamentos T1 e torres de escritórios estão concentrados na rua comercial. A unidade é delimitada por vias V3. A hierarquia de circulações, afastando o trânsito rápido dos percursos pedonais, com os espaços vazios criados pelos edifícios assentes em pilotis, deveria favorecer o encontro da comunidade e promover relações de vizinhança de modo a estabelecer laços de confiança entre mais e menos favorecidos. A densidade e proporção de população “indígena” e europeia estabelecida deveria ser de 1/3 e 2/3, respetivamente, com 1.150 habitações planeadas. O arquiteto esperava que, com o tempo, esta proporção se fosse a inverter, contribuindo para a sociedade multirracial que planeava.
Na verdade, pode-se afirmar que Fernão Simões de Carvalho valorizou os aspetos sociovivenciais em detrimento das questões climáticas, ou mesmo higienistas, que dominavam o planeamento nas colonias africanas.
De qualquer modo o fator climático não foi completamente desprezado dado que foi adotada, na escala da arquitetura, a solução em semi-duplex, que o arquiteto considera uma ótima solução para climas tropicais, pois facilitam uma boa ventilação transversal e nenhum dos blocos está implantado paralelamente às direções predominantes do vento em Luanda (oeste-sudoeste: todo o ano / oeste-sudoeste e sul-sudoeste: de abril a junho). O único sombreamento previsto era o das venezianas exteriores. De facto, o projeto dos blocos residenciais da Unidade n.º 1 “musseque” Prenda constituiu uma oportunidade de fazer a síntese entre arquitetura e urbanismo, dado que em colaboração com o arquitecto José Pinto da Cunha (1921 – 1985) e Fernando Alfredo Pereira (1927-), Fernão Simões de Carvalho aceita a encomenda, sob iniciativa da CML, da Precol. Os blocos diferenciam-se pela altura e por tipologia – 12 pisos (tipo A, a oeste), 7 pisos (tipo B1, a norte e tipo D1 a sul), 6 pisos (tipo D2, a sul) e 16 pisos (a oeste e sudeste) – sendo em todos de salientar uma solução formal constante: sob pilotis (hoje os espaços térreos foram sucessivamente encerrados) e galerias horizontal de circulação permitindo a exploração de módulos habitacionais de um só piso e uma só frente bem como de fogos desenvolvidos em ‘duplex’ ou em meios pisos. Dos 28 blocos projetados são realizados 22.
Atualmente, a Unidade de Vizinhança Prenda foi muito alterada e o “musseque”invadiu todos os espaços livres, incluindo a parte inferior dos blocos de habitação. Foram construídas paredes entre os pilotis, de modo a ocupar também o piso térreo. No entanto, o conjunto destaca-se no skyline e na planta da cidade.
Um sopro de cidade moderna, uma ilha isolada onde se tentou fazer vingar os princípios da
Carta de Atenas, numa época em que se acreditava poder regrar o latente crescimento da cidade, integrar e mesclar as populações, criando condições de vida aprazíveis para todos.
e da habitação unifamiliar.
FONTE: https://hpip.org/pt/heritage/details/2000