20/10/2025
ARTIGO: A ALMA DO PROJECTO
Preservação arquitetónica.
A mudança é um fenômeno natural. Muitos filósofos gregos chegaram a defender que tudo muda. Lavoisier, mais tarde, diria que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
E em certa medida, sim, tudo se transforma, mas há, na natureza, lugares que pedem permanência, não mudança, principalmente quando entramos para o nosso campo — a arquitectura —, onde cada detalhe da construção conta uma história e uma verdade.
O rústico, por vezes visto como vestígio do passado, é na verdade a expressão da sua verdade material e simbólica.
Preservar certas características originais é preservar essa história — é garantir que a memória e o espírito do lugar continuem a habitar o espaço.
A arquitectura, enquanto linguagem, não se limita à forma ou à técnica.
Ela é também memória, emoção e narrativa.
Os espaços são guardiões de signif**ados: contêm a força da lembrança e a presença invisível do tempo.
Mesmo quando o tempo se dissolve, permanece a sensação — o vínculo silencioso entre matéria e memória.
Um projecto com alma fala, mesmo em silêncio.
Comunica pela coerência entre a intenção do autor, a materialidade da obra e a experiência sensorial de quem a habita.
Quando essa alma se perde, resta apenas o corpo — o edifício torna-se mudo, esvaziado de sentido.
Mas quando ela permanece, o tempo curva-se diante da obra, reconhecendo nela um testemunho de autenticidade.
O projeto em questão, de autoria desconhecida, revela uma arquitetura de vocação futurista, concebida no auge do modernismo.
Mesmo em pleno século XXI, entre novas tecnologias e linguagens estéticas, a preservação de certos elementos — aquilo que se pode chamar de “alma do projecto” — é essencial para manter a sua integridade formal e simbólica.
Contudo, algumas imagens actuais do interior do edifício revelam alterações que distanciam a obra da sua concepção original.
Em 2024, tive o privilégio de visitá-la e apreciar o traçado autêntico, acompanhado de obras de arte que traduziam as vivências dos namibenses, esculpidas em pedra.
Essas expressões plásticas, que faziam da matéria uma forma de memória, espero não estarem hoje relegadas a um plano secundário.
O novo tecto falso, ainda que responda aos anseios contemporâneos, encobriu parte da sua essência — o diálogo entre o espaço e a verdade do material.
Talvez preservar o rústico, o imperfeito, o vestígio humano na obra, fosse o caminho mais digno para honrar a história, a memória dos que a criaram e o génio do arquitecto que a sonhou.
A alma de um projecto não se desenha: manifesta-se.
Está na intenção, na proporção, na luz que atravessa a matéria.
E quando ela é respeitada, o espaço deixa de ser apenas construção — torna-se testemunho. E é esse testemunho que é preciso preservar!
By: Pedro Mendes.