12/10/2014
Sam Maloof: Alma de marceneiro
Certa vez, ao sentar-se numa cadeira feita por Sam Maloof, o cantor Ray Charles passou a mão pela madeira e disse: "Posso sentir que esta cadeira tem alma". Ao voltar no mesmo local depois de algum tempo, a primeira coisa que pediu foi: "Gostaria de tocar aquela mobília novamente".
O marceneiro norte-americano Sam Maloof, cujo trabalho Ray Charles já conhecia antes de usar a cadeira, é considerado um artista, mas não gosta desse rótulo. Pessoas de vários pontos do mundo visitam sua oficina na Califórnia para tentar saber um pouco mais sobre esse profissional tão premiado e reconhecido.
Sam Maloof nasceu em Chino, oeste dos Estados Unidos. É o sétimo dos nove filhos de um casal libanês. Desde pequeno, construía pequenos objetos e brinquedos feitos com latas, garrafas e, lógico, madeira. Poderia ser marceneiro desde criança, como muitos, mas a vida de jovem o levou para outra profissão. Aos 18 anos, desistiu de tentar a faculdade, pois tinha se apaixonado pelas artes gráficas, e foi trabalhar numa pequena empresa que fazia cartazes de cinema.
Trabalhando nesse mercado, conheceu designers, artistas plásticos e arquitetos e foi com estas pessoas que aprendeu a fazer móveis e objetos de madeira tão valiosos. Ele nunca freqüentou uma escola de marcenaria, mas passou tardes e tardes visitando museus e galerias de arte, desenhando e observando o trabalho de escultores e artistas.
Aos 32 anos, depois de passar por escritórios de arquitetura e design, como os dos designers Harold Graham e Millard Sheets, percebeu que trabalhar com duas dimensões era pouco para ele e decidiu que seria um marceneiro. Na época, morava em Nova York, num apartamento muito pequeno e desconfortável, quando resolveu fazer suas próprias mobílias. Um amigo viu a criação e fez uma encomenda. Vieram outros e mais outros até que, em 1947, passou a viver só da marcenaria. Um ano depois, montou uma oficina de garagem em Ontário, Califórnia, casou e já teve seus primeiros trabalhos expostos numa feira em Los Angeles.
Desenho não é algo que pode se ensinar, define. É possível encorajar alguém a desenhar e é possível aprender, mas nunca ensinar. Seu desenho é natural e respeita profundamente as características da madeira. As peças, sempre desenhadas e executadas por ele, parecem vivas e estão em perfeita harmonia com o material do qual são feitas. A peça precisa deixar a madeira falar, diz.
Exposições e homenagens não faltam na vida desse marceneiro. Desde 1948, foram feitas dezenas de exibições dos seus trabalhos nos Estados Unidos e na Europa, onde expôs também no Vaticano. Suas cadeiras estão até na Casa Branca, sede do governo norte-americano foram encomendadas e testadas pelo então presidente Ronald Reagan. Ele foi o primeiro americano vivo a ter uma peça incluída na coleção de móveis da Casa Branca e outras das suas criações fazem parte das coleções permanentes de museus americanos, como o Metropolitan Museum of Art, de Nova York, o Boston Museum of Fine Arts e o Museum of Art, de Filadélfia. Em 1985, recebeu o prêmio Gênio da Fundação Mac Arthur.
O sucesso de um móvel depende de uma comunhão. Primeiro, do artesão com o material e, depois, da peça com quem vai usá-la, explica.
Sam Maloof tem uma receita muito simples para resolver os problemas que encontra na sua profissão. Quando uma peça apresenta uma dificuldade para ser bem construída, ele para, pensa e usa simplesmente o bom senso. Nenhuma ferramenta ou máquina de último tipo faz melhor do que o bom senso, completa.
A maturidade que este profissional atingiu lhe trouxe recompensas. Uma de suas cadeiras de balanço chega a custar US$ 12.000. A madeira de que ele mais gosta é a brasileira. Sua preferida é o pau-rosa. Esta madeira tem tanta presença que não é bom colocar mais de uma peça feita com ela num mesmo ambiente, afirma. Sua vida e seu trabalho são uma lição para os marceneiros de todo o mundo. Afinal, uma de suas frases resume bem o que representa uma marcenaria: Uma das coisas mais importantes de um móvel é a alma do marceneiro impregnada nele.
Matéria publicada na Revista Marcenaria Moderna no. 12, outubro/97