04/09/2018
Depoimento 100 anos Artigas
"Não fui aluno de Artigas, mas ganhei o privilégio de ser seu amigo até a tarde de sua partida.
Hoje, em virtude de seu aniversário (1), ouso escrever como singela homenagem essas memórias.
Tempos difíceis, idos de 1964. Artigas perseguido é acolhido por semanas em minha casa. Elena, minha mulher, o recebe receosa. Ela, uma Villavecchia, ele, uma Vilanova, declararam-se carinhosamente primos. Meu filho Fabio ganha um tio, para a empregada doméstica chega um amigo mineiro chamado Carlos e as visitas são coibidas.
O mestre, sempre lendo em seu quarto, por vezes vem se distrair na sala... Com nove meses, Fabinho voa atrevidamente em seu andador; “Carlos” protege-o com os olhos; Elena, de novo grávida, sorri com ternura... Às noites, com tragos relaxantes, conversávamos... Eu todo ouvidos, desfrutando do seu profundo conhecimento.
Certa noite, ao voltar do trabalho para mais um dia de aula, surpreendo-me! O mestre nos deixara, exilara-se. Constrangidos e saudosos, fomos marcados para sempre com o legado indelével de seus princípios estéticos, com sua visão de sociedade de retidão ética e com a emoção de sua rica poesia do espaço.
Em sua volta Artigas foi coagido a submeter-se a uma “banca” para reassumir sua cátedra naquela mesma escola que havia recriado. Contrariado, porém hábil, com extrema capacidade pedagógica, usou-a para estarrecer seus rivais, proferindo a mais magistral e emblemática aula magna celebrada na FAU, verdadeira elegia à arquitetura.
Epílogo
Quando Artigas morreu não quis ser velado na FAU. Penso que o “velho”, sempre ardiloso, não desejava ser visto estático e inanimado em sua “casa”. Preferiu deixar aos algozes a certeza que até hoje caminha perseverando suas sábias mensagens pelo seu monumento arquitetônico.
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