02/09/2025
Foi anunciada a dispersão de 50 kg de sementes com recurso a drones para “recuperar” uma área ardida. À primeira vista pode parecer uma solução moderna e eficaz, mas na realidade é uma medida mais simbólica do que prática — e dificilmente trará resultados concretos.
1. Falta de contacto com o solo – As sementes simplesmente lançadas à superfície, em solo queimado e seco, ficam expostas ao vento, à água da chuva que as arrasta, e aos animais que as comem. A probabilidade de germinação é mínima.
2. Ausência de preparação do solo – Qualquer agricultor sabe que, para semear cereais como o centeio, é preciso que a semente seja coberta com terra, a uma profundidade de 2 a 4 cm, para manter a humidade e favorecer a germinação. Sem este contacto, quase nada nasce.
3. Época e condições inadequadas – A germinação depende de condições climáticas adequadas. Se não chover o suficiente nas semanas seguintes, toda a operação perde sentido. E como sabemos, a meteorologia não se controla com drones.
4. Custo versus benefício – O uso de drones dá uma imagem de inovação tecnológica, mas não resolve o essencial. Seria mais eficaz investir esses recursos em:
- preparação mínima do solo,
- sementeira mecânica ou manual em locais estratégicos,
- escolha de espécies autóctones adaptadas ao ecossistema local,
-acompanhamento e manutenção ao longo do tempo.
5. Gestão da paisagem – Recuperar uma área ardida não se faz com uma “chuva de sementes”. É preciso um plano integrado, que considere espécies nativas, retenção de solo, gestão da água e prevenção de novos incêndios.
Em resumo: lançar sementes com drones sobre um terreno queimado é mais espetáculo do que solução. Serve para manchetes e fotos bonitas, mas não para regenerar verdadeiramente a terra.Enquanto isso, nós, agricultores, sem apoios, gastamos cada cêntimo, cada gota de suor, a preparar o solo, a semear como deve ser, a cuidar para que algo cresça. E vemos o Estado a gastar dinheiro em espetáculo tecnológico para mostrar trabalho que, na prática, não existe.
Isto não é regeneração.
Isto não é agricultura.
Isto é g***r com quem vive da terra!
Drones vão espalhar hoje, na zona afetada pelos incêndios na Serra do Açor, 50 quilos de sementes de centeio com o objetivo de ajudar na regeneração dos solos, evitar a erosão e impedir que a cinza se arraste para os cursos de água.