30/01/2026
“Setenta anos é muito tempo.
Quando se passa entre pedras, madeira, ferro, estuques decorativos, pinturas de cavalete e pinturas mural, o tempo tem outra densidade, uma espessura humana. Aqui, é o tempo que nos trabalha. Cada material guarda o cansaço, a história, de quem o tocou.
Nós tentamos compreender o que resiste. Nós procuramos a duração, o gesto que repara, a linha que corrige, que é a âncora de tudo o que podemos ser, de tudo o que já fomos.
Na AOF, trabalhamos para atrasar o esquecimento. É um ofício, uma forma de fé. Acreditamos nas coisas que não desistem, acreditamos no trabalho silencioso, acreditamos no valor de cuidar. Cada restauro é um diálogo entre o homem e o tempo, uma tentativa profunda de impedir o desaparecimento.
A nossa raiz é a visão de Augusto de Oliveira Ferreira. Hoje somos guiados pela visão de Filipe Ferreira, amanhã de Teresa e João Carrilho Ferreira. Durante setenta anos, mantivemos o mesmo número de contribuinte, o mesmo nome, o mesmo cuidado. Temos orgulho em deter um dos alvarás mais antigos. Hoje, somos a mesma pessoa.
Todos precisamos de pelo menos um lugar onde a pressa não mande, onde a matéria tenha dignidade, onde o trabalho continue a ser uma forma de respeito, onde a vida prossiga o seu caminho com coragem, mas com a beleza incomparável de quem não teme a sua identidade. E há memórias que se colam à pele como se fossem cal antiga.
Não somos apenas uma empresa. Somos uma memória coletiva feita de poeira e de orgulho.
Enquanto houver ouro para brunir, continuaremos aqui.
Enquanto houver um retábulo que recorda, continuaremos aqui.
Enquanto houver uma obra de arte que se recusa a morrer, continuaremos aqui.
Continuaremos aqui.
Continuaremos a restaurar, sim; mas continuaremos, sobretudo, a recordar que uma pessoa só é uma pessoa quando tenta conservar o que ama. E nós amamos o que fazemos.”
Texto de Pedro Chagas Freitas
Filme de Luis Carvalho