26/08/2026
Em dia de aniversário de Fernando Távora: nas voltas do tempo
«Távora chez Cavacas» – recostado num sofá que o braço deixa adivinhar, óculos na ponta do nariz, rugas marcadas na testa de um rosto de expressão algo enigmática, cabelo em desalinho. Na casa do casal de arquitetos Cecília e Rogério Cavaca, um desenho de Álvaro Siza a caneta de tinta sobre folha de papel, registo de um momento de descontraída convivialidade entre amigos. Um dos muitos que Siza foi fazendo ao longo dos anos e nas mais variadas circunstâncias de uma cultivada proximidade. Neste, um pormenor importante o distingue: a nota manuscrita de Távora, no seu verso – «Depois de jantarmos no Graam’s [sic] recolhemos a casa dos Cavacas. Siza, casal Cavaca, casal Távora. E o retrato surgiu como muitas vezes surgira. Mais um. Mas não de 1999 mas a 1991. Como estaremos em 99? F.T., 16.11.1991».
Reflexo do gesto compulsivo que se fecha na datação do desenho, Siza, como que denunciando uma indecisão última, aponta para um 9 em lugar do 1. Dir-se-ia que é na ambiguidade sugerida que Távora encontra a motivação para questionar o insondável devir do tempo, mostrando como apesar de tão comprometido com o seu presente, nessa irreprimível ânsia de o compreender e de sobre ele agir, não resiste a interrogar-se sobre o sentido existencial da(s) sua(s) vida(s). Um olhar de inquietação, de poética nostalgia, de sedutora curiosidade sobre o futuro?... Certo é que o desenho acabou por ser um dos escolhidos para constar da sua grande exposição retrospectiva, em 1993, no CCB: 𝘗𝘦𝘳𝘤𝘶𝘳𝘴𝘰, uma exposição nascida da permanência no tempo, da consistência do seu caminho. Inseriu-o no núcleo «III – A Figura», acompanhado de uma legenda que o datava de…1992. De novo apanhado nas voltas do tempo!
À expectativa do jogo lançado por Távora, em novembro de 1991, respondeu a passagem dos anos. Em 1993, proferirá ainda a sua Última Aula, na Universidade do Porto, mas continuará a ensinar, a projetar, a escrever, a expor, bem para além dessa data, cruzando mesmo o milénio. De igual forma, o casal Cavaca e Álvaro Siza mantiveram-se próximos e cúmplices.
Na idiossincrasia das três datas que o acompanham, o desenho continua aberto a novos olhares, a outras interrogações. Encontra-se agora na Fundação Marques da Silva.
Fernando Távora nasceu no Porto, a 25 de agosto de 1923.
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