10/06/2026
Segundo dados divulgados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, as crianças com menos de 3 anos passam quase 37 horas por semana na creche. Entre os 3 e os 6, 38 horas no infantário. E entre os 6 e os 11 anos, 38 horas por semana na escola (o valor mais elevado da comunidade europeia!). Se acrescentarmos a estas horas os compromissos extra-curriculares e a prática desportiva, elas saem de casa às 8 e regressam às 20, tendo tido 12 horas de actividade num único dia. Sem direito a tempos livres. Sem espaços para brincarem. Sem oportunidades para descansarem. Não contando com o trabalho ao fim de semana, em que muitas têm explicações ou preparam a escola para os dias seguintes. Se a isto juntarmos os recreios de 5 ou de 10 minutos (que acabam por ter) e os trabalhos de casa, que quase todas não deixam de trazer, será exagerado afirmar que a escola se tornou no trabalho infantil do século XXI, que a infância parece estar à beira da extinção (considerando o volume de trabalho das crianças ser tão “igual” ao dos pais) e que é inadiável que o brincar ascenda a património imaterial da Humanidade?
Juntando-se a isto tudo a exigência de bons resultados, como se pode esperar que elas não tenham défices de atenção, baixa auto-estima e uma relação medrosa ou ansiosa com a escola? Serão o stress e o cansaço dos seus dias verdadeiros facilitadores duma relação de amor com a escola e com o conhecimento? Mais escola será sempre melhor escola?
E fará sentido que os melhores pais que a Humanidade já produziu se resignem a este estado de coisas? Será razoável que não considerem que brincar ajuda a aprender? E que mais corpo, mais movimento e mais relação faz com que as crianças pensem melhor? Será exagerado que se espere de todas as escolas que os espaços de recreio sejam mais sérios, que as crianças não sejam proibidas de chutar uma bola e que possam correr ou, até, sujar-se? Será sumptuoso imaginar que com aulas mais curtas elas sejam mais atentas e aprendam melhor? Será que diante de tanta distracção da nossa parte ainda será razoável esperar que elas estejam quietas, caladas e atentas, e tenham sempre bons resultados, se não lhes damos sequer tempo para serem crianças?