05/07/2025
“Selva de betão
Começo este artigo com uma história, no mínimo, insólita.
Há poucos anos fui contactada para elaborar um projeto de um jardim público. Como seria de esperar o projeto incluiu árvores e vegetação, mas, para espanto, quando o cliente viu o projeto pediu que tudo fosse mantido, mas que fossem retiradas as árvores. Tentei explicar-lhe a incorreção dessa decisão, mas sem sucesso. O dito “jardim” foi construído e, além de se assemelhar a um deserto e de jardim ter bem pouco, passou a ser um dos projetos com que menos me identifico e um dos menos interessantes da cidade de Angra.
Situações como a que descrevi são recorrentes e têm contribuído para que as cidades se transformem em verdadeiras selvas de betão com espaços cada vez mais densos e impermeáveis onde, demasiadas vezes, as árvores perdem relevância.
Só nos lembramos delas quando o calor se torna abrasador - para termos uma ideia, relativamente à temperatura, uma rua de asfalto com árvores atinge em média os 30º enquanto sem as árvores esta temperatura pode chegar ao dobro. No entanto, esquecemo-nos de todos os benefícios ambientais, sociais e económicos – além do embelezamento - que fazem delas aliadas indispensáveis no planeamento urbano contemporâneo.
As árvores têm um papel fundamental na redução das ilhas de calor urbano e no arrefecimento do ar envolvente - combatem esse fenómeno de forma natural ao oferecerem sombra e ao libertarem v***r de água -, contribuem para a melhoria da qualidade do ar - ao purificarem o ar que respiramos, promovem uma melhoria direta na saúde pública, especialmente em centros urbanos onde os níveis de poluição são mais elevados -, na manutenção da biodiversidade, na redução dos consumos - sobretudo os associados a sistemas de climatização dos edifícios -, na redução da poluição sonora - funcionam como barreiras naturais que absorvem e dispersam o som, ajudando a criar ambientes mais tranquilos e acolhedores -, na diminuição da erosão dos solos e no aumento da qualidade dos espaços públicos.
Além do número claramente escasso de árvores, deparamo-nos com o problema dos espaços altamente impermeabilizados que também contribuem para o aumento das inundações, para a degradação do solo e para a redução dos lençóis freáticos.
Cidades com ambientes cinzentos e estéreis, onde não nos é possível qualquer contacto com a natureza, são menos atrativas, têm menor valor imobiliário e contribuem para uma menor qualidade de vida e bem-estar psicológico.
Ademais a estética urbana é profundamente influenciada pela presença de elementos naturais por embelezarem, quebrarem a monotonia do betão e criarem paisagens mais agradáveis – algo que falha redondamente em Ponta Delgada.
Plantar árvores e vegetação nas ruas e nas moradias ou ter espaços verdes de qualidade distribuídos ao longo da cidade não é um capricho, é uma necessidade e uma questão de saúde pública.
Com tantas leis e soluções arquitetónicas, espanta-me que não seja claro e obrigatório, a plantação de árvores e vegetação em todas as construções e reconstruções. Espantam-me todos os projetistas que não incluem as árvores nos seus projetos e os decisores que as cortam ao desbarato, descaracterizam ruas inteiras, arrasam os corredores verdes e resumem os espaços verdes de uma cidade a dois ou três jardins ou parques que inauguram antes das eleições.
Pela emergência climática, pela sustentabilidade e pela urbanização acelerada, é urgente repensar o espaço público: plantar e preservar as árvores é uma estratégia estruturante para a nossa saúde e para a resiliência das cidades.
Vamos dizer não, à selva de betão!”
Catarina Valadão
Publicado no jornal Açoriano Oriental a 05.07.2025