25/05/2026
"A desertif**ação é hoje apresentada como uma consequência inevitável das alterações climáticas. Um fenómeno quase abstracto, explicado em gráficos e mapas de risco, que parece acontecer apesar das decisões humanas e não por causa delas. No terreno, porém, a leitura é outra. O que se observa, de forma consistente, é um processo acelerado por escolhas técnicas erradas, repetidas durante décadas, muitas vezes com boa intenção e maus resultados.
Entre essas escolhas, a aposta recorrente em grandes barragens ocupa um lugar central. São obras visíveis, quantificáveis, politicamente defensáveis. Aumentam a capacidade instalada de armazenamento de água, geram indicadores claros e permitem comunicar acção. O problema é que resolvem estatística, não resolvem paisagem.
A desertif**ação começa no solo. Começa quando o solo perde estrutura, quando a matéria orgânica desaparece, quando a vida biológica entra em colapso e a capacidade de infiltração é reduzida a quase nada. Um solo compactado transforma cada episódio de chuva num evento de escoamento superficial. A água não entra; foge. Arrasta partículas finas, nutrientes e o pouco capital ecológico que resta.
Quando isto acontece de forma generalizada numa bacia hidrográf**a, o efeito é conhecido. Picos de cheia mais rápidos e violentos, seguidos de longos períodos sem água disponível na paisagem. O paradoxo instala-se: mais chuva anual, menos água útil. É aqui que entra a barragem como resposta padrão. Capta-se a água a jusante, armazena-se num grande volume, regula-se o caudal. O indicador melhora. O processo ecológico mantém-se degradado.
Barragens não actuam sobre o território a montante. Não reconstroem solos, não aumentam infiltração, não restauram ciclos biológicos. Pelo contrário, tendem a cristalizar o problema, ao legitimar a continuação de práticas que degradam a paisagem. Se a água «já está assegurada» mais abaixo, a montante pode continuar compactada, exposta e simplif**ada.
Este modelo ignora uma evidência básica: a água só é recurso quando está no lugar certo, à velocidade certa e no tempo certo. Um reservatório cheio não signif**a uma paisagem funcional. Signif**a apenas que a água foi deslocada para um ponto específico, muitas vezes longe dos locais onde deveria infiltrar, alimentar aquíferos e sustentar sistemas vivos.
O planeamento regenerativo propõe uma lógica inversa. Em vez de concentrar, distribuir. Em vez de acelerar, abrandar. Em vez de tratar a água como um volume, tratá-la como um fluxo integrado na paisagem. Retenção distribuída, infiltração lenta e contínua, gestão do relevo, do solo e da vegetação como um sistema único. (...)" Continua em: https://www.agroportal.pt/barragens-nao-resolvem-desertif**acao-resolvem-estatistica/